Florestas

Desmatamento na Amazônia é maior do que o imaginado

Saturday, 20 de January de 2018

Desmatamento na Amazônia é maior do que o imaginado

A Amazônia perdeu 184 quilômetros quadrados de florestas em dezembro de 2017, segundo informações do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Os dados, obtidos com exclusividade pelo Globo, mostram aumento expressivo do desmatamento em relação ao mesmo mês de 2016, quando foram registrados apenas 9 quilômetros quadrados de desmate.

Esse aumento, no entanto, não representa um surto de desmate da Amazônia. Na verdade, ele reflete uma melhora da capacidade tecnológica de monitorar a floresta. O Imazon, uma ONG ambiental que faz um monitoramento independente da Amazônia, incorporou em seu sistema imagens de um novo satélite, o Sentinel-1 da Agência Espacial Europeia (ESA). Esse satélite tem a vantagem de conseguir monitorar a floresta mesmo no período de chuvas, quando há muitas nuvens sobre a região.

— Desde agosto estamos implementando o uso de novos sensores no monitoramento. Começamos com um sensor de melhor resolução, que detecta desmatamentos pequenos, e, este mês, implementamos um satélite com imagens de radar — diz Antônio Victor Fonseca, do Imazon, um dos responsáveis pelo sistema de monitoramento. — Agora, conseguimos monitorar a floresta mesmo quando tem presença de nuvem. É um ganho que não existia até hoje na Amazônia.

O sistema usado no Brasil para monitorar a floresta é um dos mais avançados do mundo. Porém, ele sempre teve que lidar com a limitação causada pelas nuvens. Isso porque esses satélites funcionam de forma parecida com um olho humano observando o planeta do céu. Se há uma barreira entre o satélite e a Terra, como as nuvens, ele não consegue enxergar. O mesmo acontece em observações no período noturno.

Já o Sentinel-1 tem a vantagem de operar em uma faixa do espectro eletromagnético, que faz com que ele funcione como um radar. O equipamento consegue ignorar completamente as nuvens e, assim, detectar o desmatamento que ocorre no período de chuvas e noturno. Lançado no espaço em 2014 pelos europeus, o Sentinel-1 é usado para monitorar desde o degelo do Ártico até terremotos e vulcões.

Usando o novo satélite, o Imazon fez uma radiografia mais precisa do desmatamento nas regiões que tiveram uma presença muito forte de nuvens no mês passado, especialmente no entorno da rodovia Transamazônica, no Pará. Os dados apontam o estado como o campeão do desmatamento, com 83% dos alertas detectados no mês. O restante foi identificado em Rondônia (9%), Mato Grosso (6%), Amazonas e Roraima (1% cada).

Mais da metade do corte foi feito em áreas privadas ou de posse (55%), mas também foi expressivo o desmatamento provocado por assentamentos da reforma agrária na Amazônia (35%). Quase 10% do desmate foi detectado em áreas protegidas, como Unidades de Conservação e Terras Indígenas. A mais desmatada foi a Reserva Extrativista Renascer, no Pará.

Para Rômulo Batista, coordenador do programa Amazônia do Greenpeace, o uso da tecnologia é um avanço importante:

— O radar não é exatamente uma tecnologia nova, mas até pouco tempo ela era muito cara. Agora que ela está disponível, é de fundamental importância utilizar essa ferramenta para monitorar a Amazônia na época chuvosa.

Batista considera que o monitoramento por satélite foi um dos grandes responsáveis pela redução do desmatamento no período de 2004 a 2012. Porém, os desmatadores aprenderam a driblar o monitoramento. Eles usam estratégias como derrubar árvores durante a noite ou no período de chuvas. No final de 2016, por exemplo, o Ministério Público interceptou telefonemas que sugeririam que uma quadrilha que vendia madeira ilegal olhava imagens de satélite em bases de dados públicas para saber se as áreas que eestavam derrubando já haviam sido detectadas.

— Com o novo satélite, um monitoramento contínuo vai impedir que isso aconteça. Também será possível detectar pequenos desmatamentos antes de eles se tornarem terra arrasada — diz o ambientalista.

Gilberto Câmara, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe), diz que monitoramento oficial do desmatamento, feito pelo sistema do Inpe, supre bem as necessidades:

— É importante gerar novas informações, mas o problema do desmatamento da Amazônia não é a qualidade da informação prestada. É a falta de interesse do governo em combater o desmatamento.

Segundo Fonseca, ainda é preciso analisar os dados com mais profundidade para entender o que está provocando o desmatamento nessas regiões:

— Precisamos de informação de campo. Mas estamos vendo algumas áreas de exploração de madeira ilegal, um desmatamento considerável em assentamentos e pressão em algumas áreas protegidas de Rondônia.



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