Eólica

Energia eólica registra recordes de expansão no Brasil

Sunday, 07 de December de 2014

Energia eólica registra recordes de expansão no Brasil

Fonte que mais cresce no Brasil, a energia gerada a partir dos ventos já representa 4% da matriz energética nacional. Pode até parecer pouco, mas uma olhada nos números revela um cenário de evidente expansão. O setor está otimista, e não é para menos. Estimativas oficiais apontam que a participação chegará a 11% na próxima década.

O segmento comemora a capacidade instalada de 5 gigawatts, atingidos em agosto e que seriam suficientes para abastecer cerca de oito milhões de residências. E não para por aí. Especialistas avaliam que, além de alternativa complementar ambiental, renovável e limpa, a fonte passou a ser uma importante opção econômica em termos de investimentos e diversificação: o País já produz a eólica mais competitiva do mundo.

A contratação é a que mais cresce em licitações do governo desde 2009, quando começaram os primeiros leilões de energia exclusivamente para eólica. De lá pra cá, a fonte marcou presença em 11 leilões e chegou à marca de 178 usinas em operação, responsáveis por 3,7 GW. Atualmente, é a segunda mais contratada nos leilões de energia e mais competitiva, ao preço médio de R$ 130 por megawatt-hora, atrás apenas das grandes centrais hidrelétricas, que comercializam energia a um preço médio de R$ 80/MWh. No final do ano, os olhares se voltarão para os leilões A-5, que negociam a compra de energia para ser fornecida em 2019, e de reserva (LER), totalizando mais de 620 projetos cadastrados em cada um e ultrapassando 17 mil megawatts. Com maiores potenciais de ventos, as regiões Nordeste e Sul são destaque neste cenário.

Para se ter uma ideia, dos 678 projetos cadastrados no A-5, 225 são de empreendimentos na Bahia, seguida de perto pelos estados do Rio Grande do Norte e do Sul, além de Ceará, Piauí, Maranhão, Pernambuco, Paraíba e Santa Catarina.

Em termos mundiais, o Brasil ocupa a 10ª posição entre as maiores capacidades instaladas de eólica em ranking liderado por países como China, Estados Unidos, Alemanha, Espanha e Índia. Ano passado, o País fechou na 13º colocação e em 2012 figurava como 15º da lista de vinte nações. “Por ser um setor muito recente no Brasil, entendemos que estas já são consideradas boas posições. Com o acréscimo de capacidade esperado até o final de 2014, espera-se que sejamos, nesse ano, o segundo país que mais instalou potência eólica no mundo nesse ínterim”, avalia a presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Melo.

Elbia prevê, ainda, que a energia gerada a partir da atual potência instalada seria suficiente para atender 24 milhões de habitantes, além de criar cerca de 75 mil postos de trabalho. “Supondo uma geração anual a um fator de capacidade de 40% para os 5 GW instalados, alcançamos uma geração anual de 17,5 mil GWh, que é suficiente para abastecer o consumo residencial de toda a região Sul”, calcula. Entidade que congrega empresas da cadeia geradora de energia eólica e principal neste segmento, a Associação trabalha com uma meta de contratação de 2 GW por ano.

Em tempos de aumento do consumo e crescente demanda por fontes energéticas alternativas, muitos países também estão investindo na força dos ventos, literalmente, mas poucos contam com os diferenciais do Brasil, que aliás já vem sentindo os efeitos tanto do recente período de estiagem como da redução do potencial para construção de novas grandes hidrelétricas. “O País está em posição de destaque, já que possui um dos melhores ventos do mundo. O vento brasileiro é um vento forte e constante, sem grandes rajadas, o que permite um rendimento ótimo das turbinas eólicas. Picos de 47% de fator de capacidade são atingidos em nossos parques eólicos, valores muito acima da média mundial, que não ultrapassa os 30%”, explica a presidente. No entanto, sozinhos, os bons ventos da natureza não são os únicos responsáveis pelo desenvolvimento acelerado da fonte nos últimos anos. Para a presidente executiva, o atual cenário demonstra que as medidas adotadas no passado foram extremamente eficazes.

Elbia lembra que o “crescimento virtuoso” da energia eólica foi impulsionado, inicialmente, pelos incentivos do Programa de Incentivo às Fontes Alternativas, lançado em 2004 com objetivo de estimular o aumento na participação das fontes renováveis não convencionais na matriz elétrica e internacionalmente reconhecido como o programa-piloto de energias renováveis para geração elétrica no Brasil. “Desde a fase do Proinfa até os dias atuais, a fonte eólica tem recebido sinalizações positivas por parte do governo, especialmente com a realização dos leilões competitivos, dos quais a fonte eólica participou da maioria, sempre com boas contratações”, reforça Elbia Melo.
Início do aproveitamento no Brasil

A energia eólica no Brasil teve seu indício em 1992, com a operação comercial do primeiro aerogerador aqui instalado, resultado de parceria entre o Centro Brasileiro de Energia Eólica (CBEE) e a Companhia Energética de Pernambuco (Celpe), por meio de financiamento do instituto de pesquisas dinamarquês Folkecenter. Localizada no arquipélago Fernando de Noronha, a turbina eólica de 225 KW foi a primeira a entrar em operação comercial na América do Sul. Porém, nos dez anos seguintes, como lembra a executiva, pouco se avançou na consolidação da energia eólica como alternativa de geração elétrica, em parte devido à falta de políticas, mas principalmente pelo alto custo da tecnologia.

Ela contextualiza que, durante a crise energética de 2001, houve tentativa de incentivar a contratação de empreendimentos de geração de eólica, com a criação do Proeólica, um programa emergencial que não obteve resultados e foi substituído pelo Proinfa. “Já se falava, então, da complementaridade sazonal do regime de ventos com os fluxos hidrológicos nos reservatórios hidrelétricos”, pontua.

“Como toda nova tecnologia, a energia eólica em seu começo tinha um custo muito alto, inviabilizando a participação nos leilões competitivos, que possuem uma lógica de contratação por menor preço. Com o passar dos anos, incentivos cedidos e sinais de longo prazo do governo, a tecnologia foi sendo barateada”, relata. Com preços abaixo dos praticados para a contratação de usinas térmicas, os primeiros leilões de eólica evidenciaram o potencial da fonte não só em ganhos ambientais, mas também econômicos. “O crescimento sustentável da fonte eólica deve-se aos bons ventos que o Brasil possui para a produção de eletricidade, um dos melhores do mundo, e também ao sistema de comercialização de energia, o qual é um dos mais desenvolvidos e que prioriza a competição entre os empreendedores para o fornecimento de energia ao preço mais competitivo possível.”

Dentre os incentivos primordiais para que a alternativa se mantenha competitiva, a presidente, doutora em Economia, destaca o desconto aplicado às tarifas de uso dos sistemas de transmissão e distribuição (Tust/Tusd) para as fontes como eólica, solar e biomassa, o convênio Confaz, que isenta a cobrança de ICMS de alguns componentes eólicos e o Regime Especial para o Desenvolvimento da Infraestrutura (Reidi), que enquadra empreendimentos eólicos a fim de isentar a cobrança do PIS e da Confins. “Para que a trajetória se mantenha, é preciso que o sinal de investimento a médio e longo prazo do governo seja mantido e que as políticas hoje adotadas continuem ativas sendo adequadas conforme necessidade”, defende.

Período de consolidação

A presidente executiva da Abeeólica acredita que a energia eólica tem um futuro promissor. “A fonte está em período de consolidação e, assim como todos os setores que estão se desenvolvendo com alto grau de inovação, tecnológico, precisa superar seus desafios. Visando aproveitar o benefício brasileiro de todas as fontes renováveis ao batalhar por uma matriz elétrica renovável térmica, a fonte eólica tem, com certeza, grande potencial de crescimento, já que dados de medição de vento atualizados apontam para um potencial eólico superior a 300 GW.”

Elbia salienta que o ideal para a segurança no abastecimento de energia está vinculado ao mix energético, já que a participação de todas as fontes é fundamental para garantir o suprimento de energia elétrica. “Para além das condições ambientais, as quais são as mais adequadas no Brasil, é necessário dispor de um sistema de comercialização de energia eficiente e também de políticas de investimento para os fabricantes de aerogeradores, peças e componentes, a fim de desenvolver toda a cadeia de suprimentos que atende o setor”, enfatiza Elbia Melo.

Em cadeia

Um estudo inédito realizado pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) foi lançado recentemente, durante a quinta edição do Brazil Windpower, maior evento do setor na América Latina: o Mapeamento da Cadeia Produtiva da Indústria Eólica no Brasil. O trabalho, primeira análise do tipo e um verdadeiro raio-X de bens e serviços do segmento, revela a existência de cem indústrias que produzem desde aerogeradores, pás eólicas, torres, partes, peças, sistemas e componentes, além de outras 136 empresas que prestam serviços para o setor, distribuídas da fase inicial de estudos de viabilidade e medição de ventos, passando pela pré-construção, construção, operação e, finalmente, manutenção de parques eólicos.

“Hoje temos uma indústria jovem, em processo de amadurecimento, mas já robusta”, destaca o especialista em Energia Eólica da ABDI, Eduardo Tosta. Líder do projeto e especialista em Competitividade Setorial, ele explica que atualmente toda a tecnologia é importada. “Existem algumas poucas iniciativas para desenvolvimento nacional, tropicalização. Com exceção da montadora de aerogeradores WEG, todas as outras são multinacionais”, aponta. Outro detalhe interessante é que não há grandes arranjos produtivos locais, o que dificulta a logística em um setor tão específico.

De acordo com o especialista, o planejamento de longo prazo é inerente à atividade. “Este setor requer um maior planejamento”, pondera. Tosta esclarece que as peças, que podem chegar a 18 toneladas, exigem um tempo considerável de fabricação, qualidade de precisão bastante elevada, o que dificulta a produção rápida e em série. Com dimensões imensas, um aerogerador tem no mínimo três pás, e cada uma pode chegar a 62,5 metros de comprimento, características que certamente influenciam o custo logístico e dificultam o transporte interno, já que nem toda estrada comporta isso. Outra especificidade é que alguns equipamentos foram planejados para temperaturas de 41ºC negativos, diferencial dispensável no caso brasileiro. Assim, desenvolver uma tecnologia nacional não só agregaria mais conhecimento tecnológico como promoveria a disponibilização de itens a preços menores. Além disso, é que o processo produtivo nem sempre é feito no mesmo local, daí a necessidade de planejamento para não haver gargalos. Rolamentos, fornecedores de aço silício e dificuldades com peças grandes com capacidade de fundição e usinagem estão entre os gargalos apontados.

Eduardo Tosta conta que a cadeia começou a se estruturar mais intensamente a partir de 2009, para atingir as regras de conteúdo nacional dos financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “Houve um crescimento significativo nos últimos anos, principalmente após janeiro de 2013, quando entrou em vigor a nova metodologia de conteúdo nacional do Finame”, ressalta.

Vantagens competitivas

Eduardo Tosta, especialista em energia eólica da ABDI, diz que atualmente existem sete montadoras de aerogeradores credenciadas na nova metodologia de conteúdo nacional do Finame instaladas no Brasil. Tosta atribui a expansão da fonte a uma série de fatores. “A energia eólica é uma das fontes mais competitivas atualmente em termos de preço, necessita de pouco prazo para implantação, requer menos burocracias em licenças ambientais e é ecologicamente correta”, aponta. Além do baixo impacto ambiental, sem emissões de gás carbônico (CO2), e do aspecto competitivo, razão pela qual vem ganhando boa parte dos leilões de energia, Tosta salienta que o setor “traz emprego qualificado e fornece desenvolvimento social para as áreas onde os parques são instalados”. Por enquanto, não existem dados confirmados sobre a geração de empregos dentro da cadeia produtiva, mas a informação de que só um fabricante de pá eólica possui mais de 7,5 mil funcionários fornece uma ideia do cenário.

Expansão e consolidação da cadeia de fornecedores no Brasil é um dos aspectos defendidos por Tosta para consolidar a energia eólica como fonte ainda mais participativa. Na análise do especialista, um dos gargalos do setor é que o País ainda não conta com desenvolvimento das tecnologias dos projetos de aerogeradores, os equipamentos que produzem energia elétrica por meio da força dos ventos. Ele acredita que “o futuro é promissor” e indica a necessidade de uma política industrial específica para o setor, com condições diferenciadas e alinhamento entre as políticas energética e industrial. Um exemplo é o prazo único para entrega e início de operação estabelecido nos leilões, o que dificulta o atendimento de toda a demanda e a manutenção do volume de contratação. “A indústria nacional já não é pequena. Ela está em fase de amadurecimento, consolidação e adaptação para atender a demanda atual e futura do setor. O País tem grande potencial, resolvidos alguns problemas de falta de competitividade frente aos importados, de ser um hub exportador de aerogeradores, partes, peças e componentes”, enfatiza Tosta.

Vantagens da energia eólica e desafios para o setor

Vantagens

- É uma fonte renovável e limpa
- Não emite gases com efeito estufa, durante a operação das usinas
- Possíveis impactos ambientais são reduzidos devido a melhorias nas tecnologias de geração das torres e à evolução nos processos de licenciamento. Máquinas cada vez mais silenciosas são instaladas respeitando a distância ideal regulamentada e as rotas migratórias de aves
- É uma fonte competitiva, a segunda mais barata no Brasil atualmente, atrás das hidrelétricas
- Não é uma fonte territorialmente excludente, ou seja, é possível coexistir com outras atividades, inclusive agrícolas, na mesma área onde os parques estão instalados
- Ajuda a fixar o homem no campo porque garante o aumento de renda evitando que as pessoas se desloquem para os grandes centros em busca de novas oportunidades.
- Auxilia na garantia do fornecimento de energia para o Sistema Interligado Nacional (SIN)
- Devido à característica complementar à fonte hidráulica, ajuda na conservação da água nos reservatórios das centrais hidrelétricas

Desafios
- Dificuldades no arrendamento e compra de terras pelos empreendedores do setor
- Adequação das empresas estrangeiras às regras do Finame, estabelecidas pelo BNDES visando aumento da produção de peças e componentes em território brasileiro em unidades fabris próprias
- Logística e dificuldade em escoar a produção de aerogeradores eólicos e componentes para onde os parques são instalados, já que a malha rodoviária e marítima nacional não possui o dimensionamento desejável para a atividade
- Atraso na entrega das linhas de transmissão, com 33 parques eólicos sem conexão, mas aptos a operar atualmente, o que significa uma produção desperdiçada de 932 MW, capazes de suprir mais de 1,5 milhão de casas. Além de maiores riscos para o empreendedor, já que desde 2013 os contratos regulados passaram a não possuir a cláusula de proteção para casos em que o sistema de transmissão e distribuição não estiver disponível
- Necessidade de maior participação da fonte eólica no mercado livre, uma vez que, em função dos prazos dos contratos e detalhes envolvendo as contrapartes, os financiamentos para projetos neste ambiente são restritos

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