Clima

Sem captura de carbono, não há carvão limpo

Saturday, 21 de December de 2013

Sem captura de carbono, não há carvão limpo

Por mais que a indústria do carvão afirme o contrário, não há como continuar a produzir energia a partir desse combustível fóssil sem que essa atividade ameace o limite de aquecimento de 2 graus Celsius. A não ser que essa produção fosse acompanhada de captura e armazenamento de carbono (CCS, na sigla em inglês) - uma tecnologia ainda muito cara.

Essa foi a mensagem lançada por um grupo de 27 cientistas, de diferentes nacionalidades, durante a COP 19 do Clima, em Varsóvia.

O documento foi uma resposta à indústria do carvão, que convocou o setor, à época, a fazer “uso imediato de tecnologias de combustão de carvão de alta eficiência e baixa emissão como um passo imediato na diminuição da emissão de gases de efeito estufa”.

Essa frase, porém, “é quase uma desinformação, que confunde a opinião pública”, diz Emilio La Rovere, professor da COPPE/UFRJ e um dos cientistas que assinam o documento. “Era preciso esclarecer que só é possível haver alguma eficiência (na geração de energia a partir do carvão) se houver o CCS”.

Segundo o artigo dos cientistas, mesmo a mais eficiente usina de carvão emite 15 vezes mais CO2 por unidade de energia se comparada à de fonte renovável, e mais de duas vezes a quantidade emitida por usinas a gás.

A tendência atual do uso de carvão indica que estamos a caminho de uma elevação de temperatura acima de 6 graus Celsius, o que pode ser “catastrófico”, e “ir além de qualquer coisa que a humanidade já experimentou em sua existência”, afirmam os pesquisadores. Para manter a elevação da temperatura global em menos de 2 graus Celsius, o uso do carvão precisa diminuir em termos absolutos a partir de agora.

Ainda segundo os cientistas, o carvão é o combustível fóssil de mais fácil substituição por fontes alternativas, que já estão disponíveis.

Diante dessa situação, La Rovere classifica de “lamentável” a decisão do governo brasileiro de incluir as termelétricas a carvão nos leilões de energia, por temer que a energia oriunda de hidrelétricas não seja suficiente para suprir a demanda em certos períodos do ano.

“Temos outras opções (de fonte de energia), mesmo a curto prazo”, diz La Rovere. Uma alternativa, afirma, seria a energia de biomassa, principalmente a de bagaço de cana-de-açúcar. “Há um potencial enorme: é barato, é competitivo, é tecnicamente conhecido. O problema é institucional. O setor sucro-alcooleiro não tem interesse, pois o core business deles é o açúcar, que é uma commodity”.

Além disso, o setor estava sem recursos para renovar os canaviais, a produtividade caiu e o etanol encareceu, enquanto o subsídio à gasolina foi mantido, explica La Rovere. “Mas o governo retomou agora alguma política no setor”, diz o cientista. Agora que o financiamento está voltando, acrescenta, seria uma boa hora para incluir nesse pacote de ajuda a questão da energia de biomassa.

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