Biomateriais

Painel modular é produzido com resíduo de cana-de-açucar

Monday, 12 de October de 2015

Painel modular é produzido com resíduo de cana-de-açucar

Um painel modular, fabricado com bagaço de cana de açúcar e resina poliuretana a base de óleo de mamona, pode se tornar uma opção para pecuaristas utilizarem nas instalações de currais.

Além de agregar valor a um resíduo da indústria canavieira, os testes realizados na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga, mostraram que os painéis contribuíram positivamente quando avaliados alguns parâmetros de reatividade dos animais, principalmente temperatura corporal, levando a uma melhora do ambiente de manejo e bem-estar dos bovinos.

Os dados estão na tese de doutorado Painel modular de chapas de partículas de bagaço de cana para fechamento lateral de instalação para bovinos, defendido no último mês de setembro pelo zootecnista Diogo de Lucca Sartori, sob a orientação do professor Juliano Fiorelli, do Grupo de Construções e Ambiência da FZEA. A pesquisa foi realizada de julho de 2012 a agosto de 2015.

A coleta de bagaço de cana foi realizada em usinas da região de Pirassununga. Após seu processamento, o bagaço foi misturado a uma resina poliuretana a base de mamona, derivada de um óleo de mamona produzido por pesquisadores do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP.

O bagaço de cana-de-açucar e a resina poliuretana foram colocados em uma prensa, na temperatura 100° Celsius (C), durante10 minutos. Formou-se, então, chapas medindo 55 centímetros (cm) por 55 cm, com 1,5 cm de espessura. As chamadas chapas homogêneas de partículas são semelhantes ao Medium Density Particleboard (MDP) ou, em português, Painel de Partículas de Média Densidade.

Cada painel modular é formado por 3 chapas. Elas foram fixadas com parafuso em uma estrutura de madeira de eucalipto de floresta plantada. Cada painel mede 1,75 m de altura e 55 cm de largura.

Os painéis modulares com as chapas homogêneas de partículas foram instalados em um curral localizado no campus da FZEA. A instalação selecionada no curral para os testes é denominado de seringa, localizado em uma estrutura interna do curral, com paredes de madeira em formato de funil, onde os animais são direcionados para seguirem em fila indiana até um outro ponto chamado de brete ou tronco coletivo.

Foram utilizados 14 painéis modulares, sendo que sete foram montados como Painel de Fechamento (totalmente fixados com parafuso na estrutura da seringa) e sete como Painel Estrutural (fixados apenas nas extremidades superior e inferior da estrutura, de modo a permitir a medição de seu deslocamento transversal durante a passagem dos animais).

Antes da aplicação em curral para manejo de bovinos, foi realizado teste de impacto de corpo mole para verificar a resistência ao impacto dos painéis modulares. O ensaio foi realizado no Laboratório de Construção Civil do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica (Poli) da USP e avaliou o desempenho mecânico dos painéis quando submetidos a diferentes energias de impacto, com o objetivo de simular a ação do corpo dos bovinos durante o manejo.
Seringa antes (esq) e depois (dir) da instalação dos painéis modulares

Simulação de manejos bovinos

O pesquisador avaliou os painéis modulares em 3 manejos convencionais com rebanhos grandes, contendo 140 bovinos nelores jovens, e mais 3 manejos experimentais com 4 vacas nelores adultas, onde todos os parâmetros foram controlados.

Os animais tiveram a temperatura de superfície corporal mensuradas, por meio da técnica de termografia de infravermelho, antes e depois do manejo, além do tempo de saída da seringa para o brete. “Quanto maior a temperatura corporal, maior o nível de estresse; e quanto menor o tempo de saída maior o estresse”, explica. Também foi analisado, durante o manejo, escore de Comportamento, onde são atribuídas notas aos animais de acordo com o comportamento apresentado de cada um.

Os testes indicaram que ambos os tipos de instalação de painéis modulares são resistentes e não apresentaram falhas. “Também constatamos um maior deslocamento dos painéis modulares nos manejos convencionais”, destaca. A alteração do ambiente não influenciou o comportamento dos animais, mas foi observado temperaturas mais baixas nos animais manejados, quando comparados ao grupo controle (onde não foram instalados os painéis). “As chapas homogêneas de partículas são mais “macias” que a madeira convencional e, por isso, menos agressivas ao contato”, explica o pesquisador.

Sartori destaca que o projeto foi realizado em nível laboratorial, mas lembra que a fabricação dos paineis modulares com bagaço de cana de açúcar e resina poliuretana a base de mamona é semelhante aos painéis em MDP. “Seria necessário apenas fazer uma adaptação das plantas já existentes. Já a montagem dos painéis é simples. Para utilizá-los, bastaria fixá-los para o revestimento das paredes”, finaliza.

USP



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