Biomassa

Casca de café substitui carvão vegetal

Monday, 05 de July de 2010

Casca de café substitui carvão vegetal

Na safra de 2004/2005, o Brasil produziu 33 milhões de sacas de café, o equivalente a 2 milhões de toneladas do produto. Desse total, que garante ao Brasil liderança absoluta na produção do grão, praticamente a metade, ou cerca de 1 milhão de toneladas, era composta por resíduos da casca do café, atualmente de baixo uso comercial. Esse subproduto, no entanto, pode ser usado como fonte de energia na indústria, diminuindo custos das empresas, reduzindo a poluição ambiental e agregando valor ao que normalmente vai para o lixo.

Segundo estudo do professor do Departamento de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília (UnB) Luiz Vicente Bocorny Gentil, a casca tem um potencial energético próximo ao da madeira. Experimentos permitiram identificar que a queima de cada quilo do material seco, com 0% de umidade, gera 3.933 quilocalorias, número considerado excelente pelo pesquisador se comparado à lenha, principal fonte usada pelas empresas, que produzem, 4.932 quilocalorias.

A constatação pode resultar em uma opção mais barata e ecologicamente correta para empresas que usam madeira na geração de energia. Dados de 2005 apontam que, naquele ano, a lenha respondia por 14,17% da matriz energética brasileira. Suprir parcelas desse mercado significa cortar menos árvores e contribuir para a redução do desmatamento.

“A própria indústria de café pode consumir a casca in natura nas fornalhas que secam o grão”, afirma o agrônomo, doutorando no Departamento de Engenharia Florestal (EFL) da UnB sob orientação do professor Ailton Teixeira do Vale, especialista em bioenergia.

Valor agregado

Hoje, o resíduo tem uma aplicação bem menos rentável. A principal utilização se limita à forragem do solo das plantações de café, como meio de manter a umidade da terra e evitar o crescimento de capim. A segunda opção ocorre nas granjas, no pátio onde ficam as galinhas, com a função de absorver fezes e urina dos animais, a fim de evitar a proliferação de doenças.

No entanto, a casca pode também ser prensada, transformando-se em cilindros chamados briquetes, e assim ser queimada em fornalhas. Há no Brasil 60 empresas de briquetagem, que produzem os cilindros principalmente a partir de resíduos de madeira. Nesse processo, qualquer tipo de material orgânico pode ser prensado no formato de pequenos cilindros, como forma de substituir a lenha em indústrias de oleaginosas, cerâmica ou outras que utilizem fornos para alimentar caldeiras ou para secagem.

Uma tonelada de briquete feito com casca de café seria uma alternativa a mais no mercado, que atualmente comercializa uma tonelada de briquete de serragem e restos de madeira por valores entre R$ 350 e R$ 400.

Sustentabilidade

Segundo Gentil, o uso do material reúne uma série de benefícios. Em primeiro lugar, ajuda a “limpar” o meio ambiente, já que reduz a quantidade de subprodutos deixados na natureza. Em segundo, contribui para a minimização do desmatamento de áreas nativas, pois substitui a madeira. Por fim, ao mesmo tempo em que constitui uma fonte energética de custo zero, pode gerar renda aos produtores de café.

Já Ailton do Vale, professor e pesquisador da área de energia de biomassa afirma que, ao contrário dos derivados de petróleo, os combustíveis renováveis a partir de biomassa, como é o caso da casca de café, seqüestram o carbono emitido na queima para realização da fotossíntese.

Os resultados estão no artigo Caracterização energética e rendimento da carbonização de resíduos de grãos de café e de madeira duke, de autoria de Ailton Teixeira do Vale, Luiz Vicente Gentil, Joaquim Carlos Gonçalez e Alexandre Florian da Costa, que foi publicado na revista Cerne, da Universidade Federal de Lavras.

Universidade de Brasilia



Marcadores: biomassa, briquetes, energia, desmatamento, sustentabilidade, valor agregado