Biocombustíveis

Onde quer chegar a Pátria do Etanol?

Thursday, 16 de June de 2011

Onde quer chegar a Pátria do Etanol?

Uma certeza fincou raízes nas terras de S. Paulo, onde foi realizado o Ethanol Summit 2011 nos dias 6 e 7 de junho: o etanol e todos os subprodutos 'bio' da cana-de-açúcar vieram pra ficar. O Brasil, país abençoado com sol, terra, água e muito conhecimento sedimentado desde os tempos coloniais, pátria do etanol, é a “bola da vez” no cenário global.

Uma questão, porém, ficou no ar, enquanto se desenrolava a meada das apresentações e dos debates nos intensos dois dias de reflexão do setor: para onde quer ir o Brasil, pioneiro do bioetanol de cana e da nova economia verde, de baixo carbono?

Diz-se que “quando não se sabe para onde se quer ir, qualquer destino vale”. O Brasil precisa decidir, pelo diálogo entre empresários, poder público e sociedade civil.

Segundo estimativas da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Única), organizadora do evento, a cultura da cana move-se cada vez mais para o Centro-Oeste do País. Dados recentes, apresentados no Summit, por Marcos Jank, presidente da Unica, revelam que na última década ocorreu uma nítida mudança em direção ao Centro-Oeste.

“Nesse momento, a taxa anual de crescimento é de 19% pra Goiás, 18% para Minas Gerais, 15% para o Mato Grosso do Sul, 9% para São Paulo e 9% para o Paraná”, ressaltou Jank. “Claramente a cana está indo para o Centro-Oeste. Mas o consumo está concentrado em S. Paulo, que é de 55% do consumo nacional, exatamente por conta do benefício do ICMS, que é de 12%. E a saída desse etanol, que é de 71%, é pelo Porto de Santos (SP). De maneira que existe um questão importante de logística, que se coloca de maneira cada vez mais forte nesse setor”, observou.

Jank apresentou ainda alguns cenários sobre o consumo de etanol, que deram a dimensão do desafio que o segmento tem pela frente. “Hoje produzimos 22 bilhões de litros para abastecer 45% da frota de veículos leves. Em 2020, para suprir este mesmo percentual, serão necessários 50 bilhões de litros. Se quisermos atender 60% dos veículos em circulação, a produção terá de subir para 70 bilhões de litros,” destacou o presidente da Unica.

Jank apontou ainda diversos fatores que podem produzir um novo ciclo de investimentos na indústria da cana, marcada pelo dinamismo: aumento de eficiência da produção de cana e etanol e nos motores flex fuel; ajustes na regulação e na tributação do setor; construção de um amplo programa de bioeletricidade; redução do protecionismo que ainda vigora no mercado mundial de etanol; inovação tecnológica, por meio de novos produtos e processos,.

Antigas petroleiras, novas “empresas de energia” investem no Brasil

Um cenário que há apenas dois anos parecia fantasioso, concretizou-se em 2011: grandes empresas petroleiras vieram ao Brasil firmar parcerias na seara do etanol de cana-de-açúcar, atraídas pelo desenvolvimento tecnológico da indústria da cana. Acompanhando o movimento da Petrobrás, grandes indústrias petroleiras, como Shell, Total e British Petroleum, hoje procuram se desvincular do rótulo “petroleiras”, redefinindo-se como “empresas de energia”, denominação mais sintonizada com a nova economia verde, de baixo carbono.


A Shell firmou recentemente uma joint-venture com o grupo Cosan, formando a Raízen, para oferta de etanol. A Total detem 22% da Amyris, empresa que iniciou no Brasil a produção de moléculas que vão substituir polímeros com base no petróleo.

Num painel que reuniu os presidentes destas quatro indústrias petroleiras em busca dos desafios da bio-economia, o executivo Vinod Khosla, não mastigou suas palavras, e deu um duro recado: “A indústria de petróleo precisa investir mais em pesquisa e desenvolvimento para a produção de biocombustíveis”. O investidor é presidente da Khosla Ventures, uma das maiores empresas do mundo que patrocinam pesquisas em novas matrizes energéticas.

“O caminho são as parcerias”, observou o presidente de Gás e Energia da Total, Phillippe Boisseau. “Acreditamos no potencial do Brasil, por isso investimos, em conjunto com a Amyris, na produção local de novas moléculas a partir da cana”.

“Entre 2020 e 2030 os biocombustíveis deverão responder por 40% da oferta de energia no mundo, e as empresas de petróleo estão se preparando para suprir essa demanda”, afirmou Phil New, presidente da BP.

Mas Khosla rebateu: “Os investimentos da indústria do petróleo em novas tecnologias ainda é tímido se comparado aos combustíveis fósseis que consomem bilhões de dólares.”  O investidor provocou ainda mais: “Nos projetos em parceria com a universidade, os sucessos são das empresas, e os fracassos sobram para os laboratórios de pesquisa.”

Para Khosla, em pouco tempo não se falará mais de cana, mas de biomassa. “Já existe tecnologia para que o preço do biocombustível caia abaixo de US$ 0,50 até 2015,” afirmou.

Desafios e competitividade

A necessidade de uma política coerente para a indústria da cana, no Brasil, sem que isto implique em controle governamental sobre as empresas privadas deste setor, foi levantada em críticas e debates, na presença de autoridades federais.

As dificuldades e os desafios desta indústria, provocados pela queda nos investimentos em decorrência da crise de 2008 também foram temas recorrentes, em sessões plenárias e painéis.

Discutiu-se a questão da competitividade, as características e peculiaridades do setor, o futuro dos mercados e os gargalos de logística, entre outros pontos.

O descompasso entre a oferta ainda restrita e a demanda crescente de etanol no Brasil exigem um inevitável aumento de produção de cana-de-açúcar e uma sensível melhoria da logística. Até mesmo para atender produtos já consagrados, como o açúcar e a bioeletricidade, ou mesmo novos, que tem ganhado escala, como os bioplásticos.

Setor da cana e do etanol quer regras claras do governo

Marcos Jank vem mostrando que é difícil sobreviver num mercado com um preço trabalhado, regulado, um preço político, que é o da gasolina, enquanto a indústria da cana e do etanol trabalha com preços de mercado.

Para ilustrar o que o setor espera do governo, no momento atual e para continuar investindo, Bruno Melcher, presidente da LDC-SEV, lembrou dois momentos na história muito recente da indústria de açúcar e álcool brasileira.

“O primeiro foi na década de 90, quando se tirou toda a regulação para exportar açúcar. O Brasil ficou liberado para exportar açúcar, em 1997, isso foi um marco muito importante. Com isso, as exportações de açúcar do Brasil cresceram muito, mais do que 15 vezes”, observou o CEO da LDC-SEV. “Nesse sentido, foi uma regra clara para o mercado, uma liberalização, e os empresários souberam se adaptar, passar por altos e baixos no preço de açúcar, e expandir a produção de açúcar, para exportar nesse período.”

“O segundo momento, fundamental e mais tecnológico, foi a introdução do carro flex, em 2003, que criou uma demanda por etanol, que responde exclusivamente a forças de mercado”, ressaltou Melcher. “Desde 2003, a demanda doméstica por etanol tem subido a taxas de mais do que 10% ao ano, taxas impressionantes, num mercado que se regulou exclusivamente por forças econômicas, sem interferência.”

“Citei esses dois exemplos no contexto de que do primeiro momento até hoje, foram investidos no setor perto de 80 bilhões de reais em cana-de-açúcar. Falou-se hoje de manhã que nós precisamos até 2020 investir mais 80 bilhões pra dar conta da demanda de açúcar internacional, e etanol, só no mercado doméstico”, prosseguiu o CEO.

“Acho que a mensagem sobre o que se espera do governo é de que mantenha regras claras, previsibilidade, liberdade de empreendedorismo. O empresário do setor está habituado à volatilidade, a ver preços de mercado do etanol a 600 reais e a 3 mil reais. E a despeito disso, conseguiu investir esses 80 bilhões. Certamente com regras claras, previsibilidade em relação às regras do jogo, o empresariado estará disposto a investir os próximos 80 bilhões. Sem isso, vai ser muito difícil atrair capital para o setor.”

Jacyr Costa, presidente da Açúcar Guarani, observou que quando se tem produção e um mercado desejoso de comprar esse produto, mais o investimento em logística – em ligar, conectar esses dois pontos – o investidor vem. “Essa semana eu recebi uma grata notícia de um produtor que disse estar apto a abastecer navios de 100 mil toneladas no Porto de Santos rapidamente”, destacou Costa.

Etanol agora x novos produtos daqui a 10 anos

Convivem, no cenário sucroenergético brasileiro, visões pragmáticas e visões futuristas. A primeira visão – na linha "o etanol é agora", foi protagonizada no evento pela indústria sueca Scania, fabricante dos 50 ônibus movidos a etanol, que passam em junho de 2011 a renovar a frota de transportes coletivos de S. Paulo.

“Nós apoiamos o biodiesel, o biogás e, claro, o etanol, como já fazemos há muito tempo”, afirmou o vice-presidente da Scania América Latina, Christopher Podgorski. “A razão é que o etanol é, de longe, o substituto mais eficiente, em termos de custo, para o diesel no transporte pesado, conforme verificamos. Nada se compara ao etanol em termos de volumes, sustentabilidade e eficiência, em termos de custos. Tomamos conta muito bem do seu etanol. Temos feito isso há cerca de 30 anos, com ônibus e caminhões, em todos os continentes.”

“Quando se tem duas coisas boas, se combinarmos as duas, teremos algo ainda melhor”, observou o executivo da Scania. “Primeiro, tiramos as pessoas dos carros e as colocamos no transporte público. Mas o transporte público tem de ser eficiente, deve circular por corredores, não ficar parado no trânsito. E o último passo: você coloca como combustível o etanol. E aí temos um transporte verdadeiramente sustentável.”

“Para isso, não é preciso esperar dez anos”, ressaltou Podgorski. “Nós já temos isso hoje, agora. Acho que deveríamos fazer isso numa escala muito maior. Creio que devemos caminhar cada vez mais para uma economia inteligente e de baixo carbono, e que a cana-de-açúcar vai desempenhar um papel central nessa nova economia.”

Visões mais futuristas – na linha "o futuro da cana pode nem ser mais o etanol, mas o diesel de cana, e outras moléculas que garantam maior valor agregado aos produtores" – são patrocinadas pelas novas indústrias, de tecnologia de ponta. Empresas que investem na pesquisa de novas moléculas e produtos do futuro, que conferem maior valor agregado à cana e ao etanol, permitindo a longo prazo margens maiores de lucro.

Os dois anos transcorridos desde o segundo Ethanol Summit, em 2009, foram um período de intenso movimento, de fusões, aquisições, formação de 'joint ventures', voltadas principalmente para o desenvolvimento do etanol de segunda geração (etanol celulósico). Mas visando também outras evoluções a partir da cana, como bioplásticos, hidrocarbonos, farneseno, entre outras, previstas para se tornarem economicamente viáveis num horizonte de 10 ou mais anos.

“A demanda por matérias-primas hoje existentes representa um mercado de US$ 67 bilhões. Isso mostra o potencial em cinco a dez anos para as novas indústrias do setor,” expôs o presidente da Amyris, John Melo, no painel “A revolução da cana - novos produtos”. A empresa, que nasceu na Califórnia, iniciou no Brasil a produção do farneseno, molécula que pode substituir polímeros em cosméticos, fragrâncias e embalagens plásticas. Para isso, estabeleceu com a petroleira francesa Total uma parceria, para investir na produção local de novas moléculas a partir da cana, para substituir polímeros que têm origem no petróleo.

Uso da terra

Este tema, que desde o Ethanol Summit 2009 vinha sendo utilizado mundo afora para açoitar a indústria da cana no Brasil, foi esclarecido pelo presidente da Unica neste evento em 2011.

“A cana representa apenas 2,5% do uso da terra aqui no Brasil”, afirmou Jank. “A agricultura hoje ocupa 16%, e as pastagens, 51% das terras aráveis. A área com pastagens, hoje, é 20 vezes maior do que a área da cana. No Brasil, hoje, são utilizados 9 milhões de hectares para a cana, e 180 milhões de hectares para as pastagens. Portanto, nós temos ainda muita área que pode ser convertida para a agricultura, e particularmente para a cana no Centro-oeste. Como também temos grande potencial de ganho de produtividade.”

“As possibilidades de ganho de produtividade são imensas. Saímos de 3 mil litros de etanol por hectare nos anos 1970, hoje estamos produzindo 7,5 mil litros por hectare, e temos potencial para chegar a 13 mil litros por hectare nos próximos anos. Nosso desafio é o crescimento com sustentabilidade e eficiência”, frisou o presidente da entidade organizadora do evento.

“O setor caminha para se transformar em verdadeiras usinas de energia com alto grau de inovação tecnológica. Estamos falando de uma revolução tecnológica que está à nossa porta, com novos usos e aplicações”, observou Marcos Jank. “Produtos para mover automóveis, motocicletas, máquinas pesadas, além de aviões. Bioplásticos, produtos da química fina, e também novos processos, como os bio-hidrocarbonetos, o butanol, e o etanol de segunda geração utilizando sacarose e celulose. E tudo isso irá ocorrer sem que haja desmatamentos ou competição com a produção de alimentos.”

Transporte e saúde públicos

Por outro lado, no painel sobre uso de etanol no transporte público e saúde pública, o médico e professor Paulo Saldiva, da Universidade de São Paulo, ressaltou: “Para real investido em energia limpa, a cidade de São Paulo ganha de R$ 7 a R$ 8 em saúde. Na hora de se investir nesse segmento é preciso pensar se queremos seguir o modelo de Estocolmo ou de Los Angeles. Alguém está pagando a conta, não só da poluição do ar, mas das ilhas de calor que mudaram o clima da cidade e que provocam enchentes no verão.”

“Se toda a frota de ônibus paulistana passasse a rodar com etanol, já no primeiro ano a cidade teria 700 mortes a menos provocadas pela poluição do ar,” disse o professor Paulo Saldiva. “A cada ano morrem quatro mil pessoas na cidade por causa deste problema. Temos aqui uma questão de saúde pública muito delicada. As pessoas podem se alimentar de forma saudável, podem parar de fumar, podem se exercitar. Mas como elas podem evitar o contato com ar poluído?,” questionou Saldiva, acrescentando que isso representa um custo de milhões de reais ao Sistema Público de Saúde, o SUS.

“Na verdade, não calculamos o custo de manter a situação como está. Alguém paga pela ineficiência e isso acaba acontecendo no ‘andar de baixo’. Quem paga a conta é a saúde da população, principalmente das pessoas que ficam muito tempo paradas nos corredores de ônibus, onde há uma concentração muito maior de poluentes. A verdade é que o diesel não se comporta bem no setor da saúde humana,” acrescentou Paulo Saldiva. “Nossos caminhões, por exemplo, poluem 15 vezes mais do que os caminhões europeus. Mas eu duvido que a saúde do brasileiro seja 15 vezes mais resistente do que as populações daquele continente.”

WEBIOENERGIAS.COM.BR - com informações direto do evento e do site da Única
Fotos: WeBioEnergias.com.br
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Marcadores: cana-de-açúcar, cana, açúcar, etanol, etanol celulósico, biorrefinarias, biocombustíveis, baixo carbono, saúde, transporte públic