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O sorgo e o etanol na Terra do Sol

Thursday, 18 de February de 2010

O sorgo e o etanol na Terra do Sol Paulo Cesar Bastos (*)

O Brasil começou o ano de 2010 com problemas no mercado do etanol. Depois de uma relativa estabilidade os preços do álcool combustível voltaram a subir nos postos. Não chega a faltar álcool, mas a oferta por parte das usinas está com pequena margem de segurança em relação à demanda.
A situação começa a ser discutida com pública preocupação pelo governo e as possibilidades de importação do produto são destacadas. Acredita-se que só a partir de abril ou maio o mercado venha a ofertar um maior volume de etanol o que permitiria a formação dos estoques reguladores como forma de enfrentar a próxima entressafra da cana.
Outro fator influente para essa alta dos preços do etanol é a demanda mundial por açúcar, agravada pela quebra da safra de cana na Índia. As usinas privilegiaram a produção de açúcar para exportação, motivadas pelos preços favoráveis.
Assim, com a demanda mundial dos biocombustíveis e sua rápida expansão, através do forte apelo ambiental, vale fomentar e implementar, além de uma política de estoques reguladores, outras medidas inovadoras e reguladoras como a introdução de alternativas de matéria prima para a produção do álcool.
O etanol poderá vir da Terra do Sol, o Nordeste Brasileiro, pelo cultivo e utilização do sorgo doce ou sacarino para produção de álcool como alternativa para enfrentar a entressafra da cana de açúcar promovendo a segurança do abastecimento e o equilíbrio do mercado.
Cultura de regiões secas e quentes, o sorgo é plantado onde as precipitações variam entre 375 a 675 mm ao ano. Chamado de planta camelo, o sorgo poderá fazer um casamento feliz com a região semiárida nordestina. A irregularidade hídrica do Nordeste requer culturas que suportem as deficiências ambientais, caso do sorgo. Parece que nasceram um para o outro.
O sorgo é o quinto cereal mais importante no mundo antecedido pelo trigo, arroz, milho e cevada. De origem tropical, provavelmente da África, o sorgo deve ter chegado ao Brasil através dos escravos. A partir dos meados do século XX, no entanto, é que a cultura foi reintroduzida no Brasil de modo mais ordenado. Atualmente é cultivado em cerca de uma centena de países no mundo, sendo os Estados Unidos o principal produtor.
Recentes pesquisas de cientistas indianos do Icrisat, sigla em inglês para o Instituto de Pesquisa de Colheitas da Índia para os Trópicos Semiáridos, comprovaram o potencial do sorgo sacarino para produzir tanto alimento como etanol.
As folhas do sorgo doce, ricas em sacarose, permitem obter por destilação o álcool etílico. Uma parceria do Icrisat com uma empresa privada indiana implantou em 2007 uma usina de etanol a partir do sorgo cultivado por agricultores familiares. Projetos semelhantes estão em andamento nas Filipinas, México, Moçambique e Quênia.
Segundo dados do Icrisat, na Índia um galão (3,78 litros) produzido a partir do sorgo custa 1,74 dólares, enquanto a partir da cana de açúcar custa 2,19 dólares e do milho 2,12 dólares.
A Embrapa - notável instituição brasileira - na sua unidade de Milho e Sorgo, já possui, desde a época do lançamento do Proálcool, um programa de pesquisa com cultivares de sorgo sacarino. Dezenas de variedades estão sendo avaliadas e são bastante promissoras. Não é novidade para os competentes pesquisadores agropecuários brasileiros.
Precisamos, no entanto, como ação complementar, de um plano eficiente para a transferência de tecnologia com assistência técnica e extensão rural. Urge levarmos a ciência, tecnologia e inovação para a produção, a serviço do cidadão. Conhecimento gerando desenvolvimento , através de um forte programa inovador de fomento às alternativas para a produção do etanol.
O sorgo doce seria uma alternativa viável e sustentável sob o ponto de vista agronômico, industrial, econômico, ambiental e social. Além de reduzir o período ocioso das grandes usinas na entressafra, com adaptações no processo, os pequenos produtores de sorgo poderão operar, também, mini e microdestilarias de etanol.
A cadeia de produção proporcionará a geração de novos empregos rurais, principalmente no Nordeste, promovendo assim a inclusão social com a redução dos desníveis regionais. Vale ,ainda, ressaltar a vocação do sorgo como cultura de sequeiro viável para a integração lavoura-pecuária no semiárido nordestino , ação importante para um plano de recuperação de pastagens degradadas.
Um desenho pormenorizado de um programa de matérias primas alternativas para o etanol não cabe neste artigo de opinião. A nossa intenção é contribuir de forma positiva, lembrando outros caminhos que poderão ser discutidos e melhor analisados. Um convite ao bom debate para construirmos um Brasil próspero, preservando, produzindo e avançando para ser o líder dos biocombustíveis e alimentos do mundo.


(*) Paulo Cesar Bastos é engenheiro civil e produtor rural

 

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