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Uma nova revolução tecnológica

Sunday, 07 de November de 2010

Uma nova revolução tecnológica A recente evolução do setor sucroenergético, com a chegada ao Brasil de grandes empresas de fora investindo pesado na produção da agroenergia, vem mudando significativamente o cenário futuro de médio e longo prazo. A atividade sucroalcooleira foi, por séculos, de capital eminentemente nacional. De repente, em pouco mais de 3 anos, já temos 22% de capital estrangeiro nela investidos, podendo chegar a 37% até 2015.
Gigantes como Dreyfus, Bunge, Cargill, ADM, Tereos, Abengoa, Amyris e Renuka, entre outras, se juntaram a esta nova onda em que entraram também fundos de investimento de diversas nacionalidades e empresas brasileiras, como a Odebrecht (através da ETH) alem de importantes petrolíferas, como a Shell (associada à Cosan), a BP, a Total e a própria Petrobrás (também associada à Mitsui).
Tamanha internacionalização é acompanhada por forte consolidação interna, com grupos nacionais crescentemente poderosos comprando outros e diminuindo o número de atores neste palco importantíssimo do nosso agronegócio.
Pelo menos 2 aspectos podem ser ressaltados neste ambiente.
O primeiro é a impressão de que estes grandes investidores devem estar olhando mercados que não apenas o nosso, interno. Em outras palavras, devem acreditar que a agroenergia ganhará dimensão global, com mais países produzindo e consumido biocombustíveis e bioeletricidade com algum tipo de certificação internacional (a ÚNICA está empenhada neste processo). Há poucos dias, os americanos aumentaram para 15% a mistura do etanol na gasolina (a passagem do E10 para E15 nos Estados Unidos representa mais 24 bilhões de litros lá consumidos por ano) e cada vez mais Nações são atraídas por esta alternativa energética renovável e mitigadora do aquecimento global, que se caracteriza como uma importante via de desenvolvimento dos países tropicais, gerando aí - onde a demanda por alimentos e energia mais cresce pelo aumento de suas populações e renda per capita - uma oportunidade formidável, especialmente quando a cana é a matéria prima.
O segundo aspecto, e muito instigante, é o da tecnologia.
Junto com as empresas que investiram na produção do etanol ou do diesel a partir da garapa, ou mesmo da novel alcoolquímica como sucedâneo da petroquímica, chegam também as grandes instituições privadas de desenvolvimento tecnológico. Já vieram a Monsanto (que comprou a Canavialis, do Grupo Votorantim), a Basf (aliada ao CTC - Centro de Tecnologia de Cana-de-açúcar, em Piracicaba), a Syngenta, a Amyris e outras mais.
As novas perspectivas da sucroenergia indicarão as futuras rotas tecnológicas, entre as quais estão o desenvolvimento de variedades de cana mais ricas em açucares não cristalizáveis que também se transformem em etanol; a necessidade de mais fibras no colmo para a cogeração de eletricidade; o uso das folhas para o mesmo fim; variedades mais eretas para otimizar a mecanização do corte; variedades resistentes à seca, a pragas e a doenças; que sejam capazes de fixar Nitrogênio ao solo como a soja já faz através de inoculação de bactérias específicas; que melhor absorvam os nutrientes (unindo transgenia e nanotecnologia); e os avanços espetaculares da alcoolquímica.
Também há muita pesquisa na área da mecanização do corte, da estocagem e transporte de etanol, temas em que as margens podem crescer muito para os atores econômicos.
Em suma, uma verdadeira revolução tecnológica está em andamento no setor, e isto é bom, especialmente para que o Brasil continue liderando o modelo mundial da agroenergia e possa levá-lo a outros países tropicais da América Latina, da África e da Ásia.
Como ficam nossas empresas nacionais de desenvolvimento tecnológico, confrontadas com estes monumentais investimentos de suas concorrentes de fora?
Os resultados por elas já alcançados aqui são formidáveis.
Nos últimos anos, o IAC lançou 3 novas variedades que podem aumentar em 30% a produtividade da cana.
A Ridesa, rede de universidades lideradas pela UFSCAR, que substituiu o Planalsucar extinto no Plano Collor, anunciou em outubro passado novas variedades com igual potencial de crescimento. Aliás, 58% de toda a cana plantada no Brasil vem desta organização primorosa.
O CTC lançou, de 2005 até hoje, cerca de 20 variedades promissoras, misturando e combinando variedade/solo/clima.
A Embrapa, com seu novo Centro de Agroenergia, está focada na sustentabilidade da produção da gramínea.
A Petrobrás está também se lançando na pesquisa de cana, e tem recursos e competência para avançar bastante, e rapidamente.
Portanto, há um certo congestionamento positivo no setor. Talvez fosse muito interessante uma grande coordenação entre estas instituições brasileiras todas, para evitar duplicidade de recursos e dispersão de esforços, e para que elas tenham capacidade de sustentar-se frente à avassaladora concorrência que virá, sem dúvida, com os novos agentes internacionais em desenvolvimento de tecnologia.

Roberto Rodrigues é Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, presidente do Conselho Superior de Agronegócio da FIESP e professor de Economia Rural da UNESP/Jaboticabal

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