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Eficiência energética no ambiente construído

Friday, 18 de September de 2015

Eficiência energética no ambiente construído O conteúdo deste Posicionamento CBCS - Comitê Temático de Energia foi desenvolvido como resposta às drásticas mudanças no setor energético no Brasil, como insumo para informar a discussão do Simpósio Brasileiro de Construção Sustentável (SBCS) 2015.

1. A situação elétrica no Brasil

O Brasil dispõe de enorme potencial e diversas fontes de recursos energéticos, como hidrelétrico, eólico, solar, biomassa e eficiência energética. Porém, devido à falta de planejamento no setor, centrais térmicas queimando combustíveis fósseis têm representado uma parte importante da geração desde 2013, o que foi agravado no curto prazo por períodos de seca.
Com a precificação inadequada da energia – incoerência entre custos e tarifas – em conjunto com a falta de contratação pelas concessionárias e com os empréstimos feitos ao setor para pagar o acionamento das térmicas, o consumidor cativo brasileiro terá que desembolsar um valor de mais de R$100bi nos próximos anos , um custo que poderia ter sido evitado se houvesse um melhor planejamento de longo prazo do setor desde (e antes de) a crise energética de 2001.
A falta de energia elétrica em 2015 tem sido evitada apenas em função da desaceleração da economia, fato que reduziu o consumo de energia (era esperado um aumento de 3,2% neste ano).
Ao mesmo tempo em que o Brasil se compromete com acordos internacionais de controle da emissão de gases de efeito estufa, o fator de emissão de CO2 da energia elétrica aumentou em quase cinco vezes, de uma média de 29,2 kg/MWh em 2011 para 135,5 kg/MWh em 2014, conforme dados do MCTI.
Com o objetivo de se estabelecer um planejamento adequado ao sistema elétrico brasileiro, é claro que será necessária uma reestruturação do setor e dos arranjos entre os parceiros privados e públicos, incluindo critérios de operação das usinas, garantindo que a potência contratada seja implantada e buscando uma coerência entre custos de geração e preços pagos pelos usuários.
Além disso, deve ser pensado um planejamento integrado de recursos, incluindo potenciais de eficiência energética, uso de energias renováveis em ampla escala e geração distribuída.
Edificações consomem cerca de 50% da energia elétrica do país durante a fase de uso e operação. Se incluirmos, também, a energia gasta na
produção e transporte de materiais durante a etapa da construção, o impacto total atrelado ao ambiente construído, é mais impactante ainda. Sendo assim, nenhum debate sobre o futuro energético pode ser feito sem levar em consideração o papel de edificações no consumo, e, consequentemente, o potencial que representam para atingir eficiência energética no setor.

2. Eficiência energética – o primeiro combustível

A eficiência energética reduz o consumo, sem prejudicar o bem-estar. A energia economizada é mais barata que a nova geração, o que resulta em mais confiabilidade além de não exigir a construção de novas linhas de transmissão e evitar os impactos socioambientais decorrentes da construção de novas usinas.
A Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) aponta que o consumo energético evitado em 2010 pelos países-membros foi maior do que a produção adicional proveniente de qualquer outra fonte energética, incluindo óleo, gás e até mesmo eletricidade, o que coloca a eficiência energética na categoria de “primeiro combustível”, destacando sua importância na atualidade.
A iniciativa internacional Energia sustentável para todos (SE4All, na sigla em inglês) cita a necessidade de dobrar a taxa de melhoria da eficiência energética mundialmente. Tanto o IEA quanto SE4All identificam um amplo potencial setorial de eficiência energética na área de edificações. A legislação Europeia já atua no sentido de definir a obrigatoriedade da implantação de edifícios de energia zero nos próximos anos. Tais edifícios contam com geração própria de energia, estão interligados à rede, mas têm consumo reduzido e transferem para a rede elétrica, ao longo do ano, uma quantidade de energia igual à energia consumida.
No Brasil, a eficiência energética em edificações deve fazer parte do planejamento integrado necessário ao setor, e, sobretudo, ser um item primordial para a definição de qualquer resolução estrutural frente à atual crise energética, garantindo que a volta ao crescimento econômico não implique em falta de energia, grandes impactos ambientais ou, ainda, custos exacerbados de adequação do sistema elétrico.

3. Energia em edificações – novos paradigmas

A atenção focada no setor energético nos dias de hoje, em conjunto com a emergencial necessidade da adoção de novas tecnologias, sugere um questionamento mais profundo sobre o modelo energético atual. Projetando e operando edifícios de maneira otimizada torna-se possível reduzir drasticamente o consumo. Sistemas de gestão e monitoramento, medidores inteligentes e controle remoto possibilitam a tomada de decisão sobre a quantidade de energia que o edifício deve consumir, e quando deve consumir. A geração distribuída e o armazenamento local prometem a possibilidade de exportar energia para a rede energética, dependendo da hora do dia.
As próprias metas nacionais de nova geração com o uso das fontes renováveis se tornam muito mais viáveis com a inclusão de geração distribuída em larga escala, implicando pequenas instalações de microgeração em cima ou, ainda, ao lado de edificações.
As mudanças esperadas, aceleradas pelo aumento do custo e do consumo de energia, prometem uma ruptura com os atuais modelos energéticos. Os modelos de negócios de geradoras e distribuidoras de energia terão que ser reavaliados, estas mudanças poderão alterar radicalmente a relação entre o consumidor e a rede elétrica e, assim, acelerar a descentralização e democratização do sistema. Dependendo de como forem direcionadas, estas mudanças podem promover a autonomia elétrica e criar um sistema interligado nacional mais resiliente, ou, por outro lado, se mal implantadas, podem reduzir a confiabilidade e aumentar os custos de operação da rede.
Frente às limitações do planejamento, a própria sociedade pode se mobilizar e utilizar estes espaços, se apropriando de tecnologias de eficiência energética, gestão de demanda e geração distribuída para reduzir a sua dependência de um sistema centralizado.

4. Caminhos para novas soluções

Como demonstrado em experiências internacionais, para atingir melhorias significativas em eficiência energética no Brasil, é necessário contar com a coordenação de diversos trabalhos complexos englobando políticas nas três esferas de governo, o setor privado e mercado imobiliário, geradores de energia e concessionárias das redes de distribuição.
É necessário que seja implantado um planejamento estratégico para eficiência energética em todo o país, feito por um órgão capaz de orientar e direcionar os esforços de diversos atores.
Este deve constituir uma parte estruturante do novo "planejamento integrado de recursos" recomendado para o setor elétrico e o setor energético em geral.
Programas de pesquisa e desenvolvimento, projetos pilotos e demonstrativos devem ser prioritários, em conjunto com ações de educação, capacitação e conscientização. Finalmente, a disponibilidade de financiamentos adequados para o desenvolvimento do setor é imprescindível.

5. Ações prioritárias

Setor público

Na publicação "Aspectos da Construção Sustentável no Brasil", lançada em novembro de 2014, o CBCS descreve as necessidades para eficiência energética no ambiente construído e aponta uma série de medidas prioritárias que devem ser tomadas para possibilitar a melhoria setorial de eficiência energética em edificações. Estas medidas
são divididas nas categorias de Planejamento e Gestão, Tecnologia, Sensibilização e Capacitação Profissional.
As principais ações que merecem destaque são:
• A urgente necessidade de revisar níveis mínimos de eficiência energética de eletrodomésticos, sobre tudo para sistemas de condicionamento de ar, alinhado com as melhores práticas internacionais;
• Estabelecimento de um cronograma para a implantação da compulsoriedade da etiquetagem PBE Edifica para novas edificações, de forma a informar os compradores e usuários da eficiência dos edifícios;
• Desenvolvimento de um programa de etiquetagem de eficiência de edificações em uso para explorar o potencial em operação mais eficiente (tratado pelo projeto de Desempenho Energético Operacional, do CBCS), também com cronograma para compulsoriedade no médio prazo;
• Maior envolvimento das concessionárias e prefeituras no fornecimento de dados de consumo específico (kWh/m²/ano), para facilitar a identificação de edificações com potencial de melhoria;
• Fomento à Geração Distribuída (fotovoltaico, pequenas centrais eólicas e cogeração), de forma a diversificar e fortalecer o Sistema Interligado Nacional, descentralizando a aplicação de recursos para geração de energia;
• A necessidade de uma coordenação nacional para eficiência energética, com metas e acompanhamento do mercado para quantificar as economias;
• Estruturação de um plano estratégico, coordenado nacionalmente, para gestão e otimização de uso dos recursos de Pesquisa e Desenvolvimento para apoiar as ações acima listadas;
• Treinamento e capacitação para profissionais da área;
• Modelos de apoio financeiro e isenções de impostos para projetos demonstrativos de alta eficiência.

Setor privado

O mercado da construção civil tem um papel importante em liderar o desenvolvimento do setor.
Construtoras e projetistas podem integrar conceitos passivos de eficiência energética na envoltória das edificações, e deixar infraestrutura preparada para futuras instalações como aquecimento solar e microgeração, mesmo que não sejam implantados no momento da construção.
Incorporadoras e vendedores de imóveis devem demonstrar o nível de eficiência dos seus edifícios, estimulando a demanda no mercado por edificações mais eficientes, e informando potenciais clientes sobre os seus benefícios. Programas de etiquetagem (como PBE Edifica do INMETRO) e certificação verde (como LEED, AQUA e outros) são ferramentas importantes.
Operadores e proprietários de edificações devem verificar os potenciais para o aperfeiçoamento da eficiência através de melhorias operacionais e comportamentais, retrocomissionamento, adequação da infraestrutura e eventualmente retrofit de sistemas prediais, e isso deve ser incluído na manutenção das certificações verdes.

Coordenação e texto base : Prof. Roberto Lamberts e Edward Borgstein
O desenvolvimento contou com a colaboração do Prof. Ildo Sauer, do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP.

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