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Renúncia e alerta - Marina Silva

Wednesday, 24 de February de 2010

Renúncia e alerta - Marina Silva

Com a renúncia do holandês Yvo de Boer do cargo de secretário-executivo da Convenção sobre Mudança Climática da ONU, o horizonte para a COP-16, em novembro, no México, fica ainda mais incerto. Não bastasse o desafio de se chegar a um acordo legal pós-Copenhague, haverá uma acirrada disputa política e diplomática para a escolha do(a) sucessor(a) de De Boer, que se comprometeu a ficar no cargo até 1º de julho. Quem estará à altura da tarefa?
Apesar de todos os impasses em sua gestão, De Boer teve papel fundamental nesses quatros anos à frente da secretaria. Em Copenhague, conseguiu a façanha de reunir mais de cem chefes de Estado e colocar na mesma mesa de discussões todos os 194 países membros do IPCC.
Seu estilo discreto não o impediu de ultrapassar, em certos momentos, os limites da diplomacia, constrangendo diretamente líderes contrários ao avanço das negociações. Perceptivelmente, entregou-se de corpo e alma à defesa de um novo tratado internacional para reduzir as emissões mundiais de gases causadores do efeito estufa, capaz de ajudar os países mais pobres a se adaptarem ao impacto do aquecimento global.
Recordo-me de seu gesto desesperado para salvar de um fracasso total a reunião de Bali, na Indonésia, em 2007. De Boer chegou às lágrimas em seu apelo, e de forma inquestionável, comoveu a todos, dando uma lição de humanidade. A reunião acabou com um acordo.
Durante a era De Boer na secretaria, houve aumento extraordinário no envolvimento da sociedade com o tema e, consequentemente, mais pressão sobre os governos, levando muitos deles a mudanças históricas, como foi o caso do Brasil. Felizmente essa força moral e política já não pode mais ser contida, até porque as evidências do aquecimento do clima e seus efeitos se multiplicam a cada dia.
Caberá ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, fazer a escolha do sucessor, de forma que as negociações não percam fôlego, mas ganhem nova dinâmica até a reunião no México.
Os governantes dos países comprometidos com a luta contra o aquecimento global precisam dar sustentação política ao processo para impedir que os lobbies empresariais e políticos -que militam contra um acordo vinculante de redução das emissões e manipulam divergências científicas para dar fôlego aos seus interesses- consigam continuar impondo mais obstáculos e atrasos.
A sociedade civil precisa redobrar o trabalho de mobilização e convencimento, sabendo que a troca de comando na secretaria da convenção é um importante fator para o sucesso ou o fracasso da COP-16.

Este artigo foi publicado pelo jornal Folha de São Paulo

Marcadores: mudanças climáticas, aquecimento global, ONU, COP16, Marina Silva